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Quando descansar passou a parecer perda de tempo?

Foto do escritor: Marcela Camargo
Marcela Camargo
17 de jul.
5 min de leitura

O impacto da cultura da produtividade sobre a saúde mental, o comportamento alimentar e a forma como vivemos.



Em junho, precisei interromper completamente a minha rotina.

Depois da cirurgia, havia uma única orientação: repousar.

À primeira vista, parecia simples. Mas, nos primeiros dias, descobri que parar exige mais aprendizado do que eu imaginava.

As mensagens que chegavam tinham quase sempre o mesmo tom:

"Quando você volta a atender?"

"Já está conseguindo trabalhar?"

"Está respondendo as mensagens?"


Demorei para perceber que essas perguntas não falavam apenas sobre mim. Elas refletiam uma maneira muito comum de enxergar o tempo: o descanso costuma ser visto como uma pausa entre períodos de produtividade, nunca como parte da própria saúde.

Essa percepção me acompanhou durante toda o período de repouso e me fez pensar em algo que observo com frequência no consultório.

Falamos muito sobre alimentação, atividade física e exames. Falamos pouco sobre a dificuldade que temos de interromper o ritmo da vida.

Talvez porque tenhamos aprendido a medir nossos dias pelo que conseguimos produzir.



A produtividade deixou de ser apenas uma característica do trabalho


Nas últimas décadas, o trabalho deixou de ocupar apenas um espaço da rotina. Para muitas pessoas, ele passou a organizar a própria identidade.

Estar ocupado ganhou um significado que vai além das tarefas. Tornou-se uma forma de reconhecimento social.

Responder mensagens imediatamente, manter a agenda cheia, aproveitar cada minuto do dia e sentir que sempre há algo pendente passaram a ser experiências tão comuns que quase deixaram de chamar atenção.

O problema não está em trabalhar, estudar ou realizar projetos importantes.

O problema começa quando a capacidade de produzir passa a definir o nosso valor.

Nos últimos anos, pesquisadores têm dedicado mais atenção ao papel da recuperação na saúde mental. Em vez de investigar apenas os efeitos do estresse e da sobrecarga de trabalho, parte das pesquisas passou a estudar o que acontece quando as pessoas conseguem — ou não conseguem — se desligar das demandas do trabalho e recuperar seus recursos físicos e mentais.

Uma revisão publicada na Nature Reviews Psychology, em 2024, mostra que a pausa não deve ser entendida apenas como ausência de trabalho. Ela envolve processos psicológicos que favorecem a restauração da energia mental, da atenção, da motivação e da capacidade de autorregulação, contribuindo para a saúde e o bem-estar.

Em outras palavras, descansar não significa simplesmente parar de fazer algo relacionado ao trabalho.

Significa permitir que processos essenciais para a saúde aconteçam.



O comportamento alimentar também acompanha esse ritmo


Na Nutrição Comportamental, costumamos dizer que ninguém come isolado do contexto em que vive.

A forma como organizamos nossos dias influencia, inevitavelmente, a forma como nos alimentamos.

Quando a rotina é construída em torno da urgência, a comida passa a ocupar o mesmo lugar.

As refeições ficam mais rápidas.

Comemos enquanto respondemos mensagens.

Pulamos horários porque "não deu tempo".

O momento da refeição deixa de ser um intervalo e passa a ser apenas mais uma tarefa entre tantas outras.

Esse comportamento não acontece porque as pessoas desconhecem o que seria uma alimentação saudável.

Na maior parte das vezes, ele acontece porque o tempo dedicado ao cuidado vai sendo substituído pelo tempo dedicado à produção, ao trabalho.

Nos últimos anos, revisões sistemáticas têm mostrado que comportamentos alimentares centrados nos sinais internos do corpo — como fome, saciedade e satisfação — estão associados a melhores desfechos físicos e psicológicos. Essas abordagens reforçam que comer não depende apenas do alimento disponível, mas também da capacidade de perceber e responder aos próprios sinais internos.

Na Nutrição Comportamental, chamamos esse processo de autorregulação. Reconhecer a fome, perceber a saciedade e tomar decisões alimentares coerentes com as necessidades do corpo exige atenção. Quando toda a energia está direcionada para responder às demandas externas, essa percepção tende a ficar prejudicada.

Comer é um comportamento que depende do alimento, mas também depende das condições em que esse alimento é consumido.

À primeira vista, essa diferença pode parecer sutil. No consultório, porém, ela ajuda a explicar por que conhecer recomendações nutricionais nem sempre é suficiente para mudar a forma como nos alimentamos.



O que significa cuidar da saúde?


Durante muito tempo, a saúde foi associada principalmente à prevenção de doenças.

Hoje, esse conceito é mais amplo.

A Organização Mundial da Saúde descreve a saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social. Isso significa que cuidar da saúde envolve também a forma como vivemos, trabalhamos, descansamos e construímos relações.

Essa perspectiva tem sido reforçada pela Medicina do Estilo de Vida, que considera alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse, vínculos sociais e redução de comportamentos de risco como pilares igualmente importantes para a promoção da saúde.

Talvez seja por isso que o descanso não possa mais ser entendido apenas como o tempo que sobra quando terminamos tudo o que havia para fazer.

Em muitos casos, ele é uma condição para que possamos continuar fazendo.



Quando a pausa deixa de ser escolha


Durante aqueles dias em casa, percebi que orientar alguém a desacelerar é muito diferente de aceitar essa orientação quando ela passa a valer para nós.

A recuperação exigiu tempo. Não apenas para a cicatrização e recuperação física, mas para reorganizar uma rotina que, durante anos, esteve estruturada em torno do trabalho.

Foi nesse período que comecei a prestar atenção às conversas ao meu redor. A pergunta que mais ouvi dizia respeito ao retorno: quando voltaria aos atendimentos, quando retomaria a rotina, quando tudo voltaria ao normal.

Nenhuma dessas perguntas estava errada. Elas apenas refletem uma maneira muito comum de compreender o cuidado.

Ainda pensamos no descanso como uma interrupção da vida produtiva, e não como uma condição necessária para sustentá-la.

Talvez por isso seja tão difícil construir hábitos saudáveis de forma consistente. Alimentação, sono, atividade física e saúde mental costumam ser tratados como áreas independentes, quando, na prática, fazem parte da mesma organização da vida cotidiana.

A forma como distribuímos o nosso tempo influencia a maneira como comemos, descansamos, nos relacionamos e cuidamos da nossa saúde.


Enquanto escrevia este texto, fiquei pensando que talvez exista uma pergunta que mereça aparecer com mais frequência nas nossas conversas:

Você conseguiu descansar?

Pois a resposta pode dizer muito sobre a forma como temos vivido.



Referências


  1. Kujanpää M, Olafsen AH. Optimizing work and off-job motivation through proactive recovery strategies. Nature Reviews Psychology. 2024;3:340-351. doi:10.1038/s44159-024-00298-w.

  2. Kujanpää M, Olafsen AH. Take Action, Recover Well? The Role of Daily Proactive Recovery Strategies for Recovery, Stress, Affect, and Next-Day Performance. Journal of Business and Psychology. 2024;39:1471-1490. doi:10.1007/s10869-024-09978-z.

  3. Eaton M, Probst Y, Foster T, Messore J, Robinson L. A systematic review of observational studies exploring the relationship between health and non-weight-centric eating behaviours. Appetite. 2024;199:107361. doi:10.1016/j.appet.2024.107361.

  4. World Health Organization. Constitution of the World Health Organization.

  5. American College of Lifestyle Medicine. Lifestyle Medicine Core Competencies.


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