Por que eu sempre abandono a dieta? Talvez o problema não seja você.
- Marcela Camargo
- há 1 dia
- 4 min de leitura
Se você sente que sempre começa uma dieta motivado, mas depois acaba desistindo, saiba que não está sozinho. Entender por que isso acontece é o primeiro passo para construir uma relação mais saudável e duradoura com a alimentação.

Essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório.
E a minha resposta quase sempre começa com uma frase que costuma surpreender:
"Dietas não funcionam."
Nesse momento, os pacientes costumam sorrir, me olhar com estranhamento e perguntar:
— "Mas você é nutricionista..."
Então eu respondo:
— "Calma. Eu sei que parece estranho ouvir isso de uma nutricionista..."
A palavra dieta vem do grego díaita, que originalmente significava modo de viver. Não se referia a uma lista de alimentos permitidos e proibidos, mas ao conjunto de hábitos que compunham a vida cotidiana: alimentação, descanso, movimento, relações e rotina.
Ao longo do tempo, porém, esse significado foi sendo transformado.
Hoje, quando a maioria das pessoas fala em dieta, está falando de outra coisa. Está falando de restrição, de cortar alimentos, controlar cada refeição, conviver com fome e seguir regras difíceis de sustentar.
E talvez seja justamente aí que comece o problema.
Quando digo que dietas não funcionam, não estou negando que elas possam promover perda de peso. Estou questionando a ideia de que um padrão alimentar baseado em restrição constante seja sustentável para a maioria das pessoas.
Dietas restritivas podem, sim, levar ao emagrecimento no curto prazo. O desafio não costuma ser perder peso, mas conseguir manter esse modo de comer quando a rotina muda, surgem imprevistos e a vida segue seu curso.
É nesse ponto que a ciência começa a conversar com aquilo que vejo todos os dias no consultório.
Por que as dietas restritivas costumam ser tão difíceis de manter?
Hoje sabemos que dietas muito restritivas podem produzir perda de peso no curto prazo. No entanto, diversos estudos mostram que, quanto maior a restrição e o número de regras impostas à alimentação, mais difícil tende a ser a adesão ao longo do tempo. Em outras palavras, o problema raramente é falta de força de vontade. Muitas vezes, estamos tentando sustentar um modo de comer que simplesmente não cabe na vida real.
Além disso, quando a perda de peso acontece de forma muito rápida ou por meio de uma restrição alimentar intensa, nem todo o peso perdido corresponde à gordura corporal. Se não houver ingestão adequada de proteínas e estímulo para preservar a musculatura — especialmente por meio do treinamento de força — parte dessa perda pode ocorrer às custas da massa muscular. Isso merece atenção porque a massa muscular é fundamental para a força, a funcionalidade, a saúde metabólica e também para a manutenção do peso ao longo do tempo.b
Do ponto de vista fisiológico, restrições importantes desencadeiam adaptações conhecidas há décadas. O organismo aumenta os sinais de fome, reduz o gasto energético e modifica a produção de hormônios relacionados ao apetite, como a leptina e a grelina. Além disso, alimentos altamente palatáveis tendem a despertar ainda mais interesse.
Essas respostas não representam um fracasso individual. Elas fazem parte dos mecanismos que o organismo utiliza para proteger suas reservas energéticas diante de um período de privação.
Talvez seja por isso que tantas pessoas concluam que lhes falta disciplina ou força de vontade. No entanto, boa parte das dificuldades encontradas durante uma dieta restritiva corresponde a respostas fisiológicas esperadas do organismo.

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Talvez a pergunta mais importante não seja:"Por que eu sempre abandono a dieta?"
E sim: Por quanto tempo alguém consegue sustentar uma alimentação baseada apenas em restrição?
Essa pergunta muda completamente a perspectiva, pois desloca o foco da culpa para a compreensão do comportamento alimentar.
Comer nunca foi apenas um ato biológico. A alimentação acontece dentro da rotina, das relações familiares, da cultura, das comemorações, do trabalho, do cansaço e da pressa. Ela acompanha a vida como ela é. Por isso, tentar sustentar mudanças apenas por meio de regras rígidas costuma ser muito mais difícil do que imaginamos.
Então, o que realmente funciona?
Na minha experiência clínica, as mudanças que realmente permanecem não começam quando alguém encontra a dieta perfeita. Elas começam quando a alimentação deixa de ser uma sequência de regras difíceis de cumprir e passa a ocupar um lugar possível dentro da vida de cada pessoa.
Isso não significa abandonar objetivos ou deixar de cuidar da saúde. Significa construir um padrão alimentar que faça sentido para aquela pessoa, respeitando sua rotina, sua cultura, suas preferências e o momento de vida em que ela está.
É esse processo que procuro construir com cada paciente: não uma dieta para algumas semanas, mas um padrão alimentar que possa acompanhar diferentes fases da vida, respeitando a saúde, os objetivos e a individualidade de cada pessoa.
Talvez seja por isso que eu continue dizendo, logo nas primeiras consultas, que dietas não funcionam.
Não porque eu não acredite na Nutrição. Muito pelo contrário.
Acredito que a Nutrição faz mais sentido quando deixa de oferecer apenas regras e passa a ajudar as pessoas a construir um modo de viver.
Pensando bem, o significado original da palavra díaita nunca fez tanto sentido...
Por: Marcela Diniz Camargo - Nutricionista Clínica e Comportamental



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